6.17.2013

Em partes, em imagens, em emoções. Manifesto Belém



Parte I - Primeiro veio a revolta e indignação. Todos os vídeos compartilhados dos absurdos covardes e nojentos daqueles que não consegue pensar por conta própria. De quem se cega por mandos e desmandos, e esquece da sua origem. A cegueira atiçou a chama que tem dentro de nós. Eu, que nunca me imaginei saindo às ruas, fui encantada com a onda de bom senso que resolveu recair sobre os brasileiros.
Os olhos, enfim, não mais fingiram estar fechados. As bocas pegaram seus trombones e espalharam ao mundo a revolta, a palhaçada. Foram sopros sobre a brasa que já começara a arder. Cada nova covardia, cada nova máscara caída, trazia um pedaço do desejo de sair e contribuir para mudar o país, um desejo de ser vista e ouvida. A nossa vez chegou, enfim! Isso é a história viva, pulsando. Uma história na qual estamos mergulhados, uma história que estamos escrevendo com as nossas palavras, com o nosso coração.


Parte II - Depois de tanta revolta, veio a vontade de mostrar toda essa indignação que já existe engatada nas gargantas desde que podemos nos lembrar. O tempo de sentar no sofá e reclamar do Brasil para os familiares durante o almoço e jantar passou. Agora, é muito mais do que isso. Finalmente. As postagens, que antes eram mostrando absurdas atrocidades cometidas pelos que mais temem o que está acontecendo, passaram então a ser de instigação, de incentivo e força. Passaram a ser postagens de idéias e coragem para quem quer que se dispusesse a pisar fora de casa para se unir a todo o povo brasileiro. Postagens que mostram que o "jeitinho brasileiro", agora, é esse.
Não resisti, e a vontade de sair passou a ser uma necessidade. Não dá pra estudar, ou assistir um filme e fingir que não se está ouvindo o Brasil gritar um belo e sonoro "NÃO". Não dá pra optar por fechar os ouvidos, os olhos e a boca depois de tudo que já ouvimos, e vimos, calados. Reclamar de tudo, dentro de casa, não leva a nada. Nós somos o Brasil do amanhã, e que orgulho de fazer parte disso!


Parte III - O primeiro passo, então, é mostrar que exigimos que nos seja garantido o direito constitucional de nos manifestarmos, expressarmos nossa opinião, nosso descontentamento, nossa angústia que por tantos anos berrou muda dentro dos nossos peitos. Queremos o direito de poder gritar em coro sem sermos atacados como terroristas, o que tantos vídeos mostram nesses últimos dias. O ritual começa, ansiosamente. Separa-se o casaco impermeável, uma água, documentos, um trocado, celular. Coloca-se uma blusa branca pela paz. Não há vinagre, mas há a fé de que não viria a ser necessário. Então, vem o medo, o nervosismo de que, sendo retardatários, sofreríamos da covardia que tem sido um retrato da polícia nas maiores manifestações do país.


Parte IV - O coração acelera até quase fazer as pernas tremerem, enquanto os passos apertam e nos esprememos entre os policiais da ROTAM. Cacetetes, capacetes e coletes. O caminhar deles era ameaçador de tão tranquilo. Depois de cerca de três desses encontros, e esquivas, chegamos ao movimento. Tudo muda. A vontade é a mesma. Os corações já esqueceram do medo, transbordando de emoção. Vibrando a cada coro, a cada palma, a cada bandeira brandida com paixão. O orgulho infla o peito. A voz e as palmas se unem ao coro. Estamos todos juntos, sem violência, "caminhando e cantando e seguindo a canção".
Ao olhar para o lado, podíamos perceber a polícia acompanhando o manifesto, observando, sem nenhum ar de querer intervir. Depois de quilômetros com essa atitude, passaram a ser motivo de aplausos em agradecimento, por nos reconhecer como seus, por nos dar passagem e segurança, por nos deixar falar.


Nos prédios, pessoas aplaudiam, balançavam bandeiras, e nós respondíamos os chamando para nos acompanhar "Vem pra rua!" e "Desce daí, a Luta é aqui!". E aquela senhora sorridente, em uma das varandas, balançando o lenço branco me emocionou mais do que deveria.


Parte V - A sensação de felicidade e orgulho decorrente daquela paz, daquele desabafo, nos uniu no coro de "Eu sou paraense, com muito orgulho, com muito amor!", com a certeza, novamente, de que Belém agiu lindamente, sendo mais uma vez, um exemplo para o Brasil! Que orgulho de fazer parte disso, de mostrar que o direito de nos manifestarmos ainda é nosso, e vai continuar sendo nosso, e de que o mundo inteiro está nos vendo!




Ao final do trajeto, foi pedido que nos sentássemos na BR. Em meio aos coros, um líder insurgente tomou a palavra. Na ausência de megafone, fomos o próprio eco. Ele falava frases curtas, quem escutava, repetia com a força de um coro. E todos entenderam que somos motivo de orgulho, que somos expressivos, que conseguimos nossa primeira meta, todos nós, com os punhos fechados, levantados, repetindo as palavras embebidas no desejo de mudança que todos temos, repetindo o agradecimento e reconhecimento do trabalho bem feito do policiamento, que esteve ao nosso lado, e não contra nós, como sempre e em todos os lugares deve ser. A polícia, novamente, recebeu palmas. Ficamos com a promessa do reencontro ainda nessa semana. Começamos a fazer o trajeto de volta, com a sensação de meta cumprida, de alívio, de alegria, de orgulho. 


Parte VI - Durante este trajeto, o policiamento ainda estava presente. Auxiliava no retorno do trânsito ao normal. Todos caminhando lado a lado aos cacetetes, agora sem medo algum. Viaturas que passavam, lotadas de policiais, e grupos de policiais que ainda observavam, foram alvo de enxurradas de aplausos, e sorrisos, e gritos de exaltação em reconhecimento e gratidão. Aplausos e sorrisos aos quais eles todos, sem exceção, retribuíram. A noite ficou ainda mais linda.

A gratidão é uma das maiores virtudes que o homem pode ter,
e hoje, Belém mostrou que, apesar da revolta,
é bem possível ter respeito e gratidão
por todos os nossos iguais.

Este dia ficou pra história. A palavra da noite é Orgulho. E fica a certeza de que, depois deste primeiro passo bem dado, nós dormiremos muito bem (ao menos) nesta noite.


"Brasil, vamo acordar! O professor vale mais que o Neymar!"
"Eu sou paraense com muito orgulho, com muito amor!"
"Desce daí! A luta é aqui!"
"Vem pra rua!"
"O povo unido jamais será vencido!"
"Jatene, cadê você? Vem aqui que eu quero ver!" - ao passarmos pela frente do circo Curro Velho
"O povo acordou, o povo decidiu! Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil!"
"Tira os baderneiros!" - em uma das poucas situações pontuais onde pessoas de fora da manifestação iniciaram uma baderna que foi contida em poucos segundos.

6.02.2011

Ponto de vista.


Hoje, eu olho para uma taça, e a vejo meio vazia, não meio cheia. Hoje eu esbarro em alguém e sorrio, com todo o meu rosto, mas por trás deste sorriso, me pergunto por que me sorriem de volta. Hoje, não confio mais nas pessoas. Não inicio conversas. Não me intrometo em conversas.
Não entro em grupos. Não dou abraços. Hoje, percebo que agir como uma boa pessoa só me traz
problemas. Admito que nunca fui de agir como uma boa pessoa. Mas por vezes tenho este ímpeto, e quando assim eu ajo, tudo acontece de forma a me dar até arrependimento. E é aí que as lágrimas me vêm aos olhos. Não são de arrependimento, não são de medo, nem nervosismo, nem nada que seja relacionado a alguém em específico. São lágrimas de pura tristeza.
Eu sou descrente da bondade nas pessoas. Sempre tive uma tendência de ser assim. Mas algo dentro de mim, de quando em quando, insiste em me fazer acreditar, dar novas chance
s, dar oportunidade ao mundo para que me mostre que estou errada. E eu imploro para errar. Imploro para ser obrigada a mudar, para ter um motivo. O mundo, por outro lado, só me confirma o quão certa eu sempre estive.
Na minha taça, já meio vazia, restam gotas de amargura, de descrença, de desapego. E enquanto a encaro, com ânsia de subitamente vê-la com outros olhos, sento num canto e, através da sua transparência, observo os outros terem suas vidas, fazerem suas amizades, sorrirem sorrisos forçados, criarem piadas vazias, tentarem traçar seus caminhos para o centro das atenções, enquanto eu fico, em silêncio, à margem de tudo.
Aparências existem para serem vistas. E eu as vejo, enquanto imploro para um sinal, um relance de algo que mude meu olhar. Por que, o que vejo, não passa de um reflexo dos meus próprios olhos, então descrentes, vazios, amargos - reflexos, por sua vez, das respostas que o mundo me dá. Ainda espero, até então, incessantemente, por algo q
ue permita que meus olhos vejam aquela taça meio cheia.

3.17.2011

3.26.2009

Além disso

As nuvens passam, as gotas caem. O céu se tinge de todos os tons, do ouro ao azul. E olho para as jóias incrustadas no breu, ou para os raios se lançando ao chão. Para a limpidez do horizonte ou a branquidão das tempestades. Vejo-me procurando seus olhos, sua face. Vejo-me aguçando os ouvidos: tento ouvir sua alma. Sentir a brisa da sua voz e o cheiro da sua presença. Desejo poder ouvir, sentir, ao invés de lembrar. Ao invés de desejar. Desejo poder lhe falar ao invés de escrever. Sentir seu abraço, seu coração. Viver minha vida com você em todos os pontos e cantos e meios, como sempre foi. E sei que sempre será, porque neste ano, tudo se intensificou, menos a dor. Tudo encontrou você em algum momento. E de tudo que vivemos, lembro com você, com a sua presença. Por estas linhas, por este fato, encontro-me com sorrisos nos olhos, com gotas de amor escapando pelos cantos. Sinto esta felicidade serena que entra em compasso com o coração enquanto as linhas se fazem. Sussurro as palavras que minha alma vai escrevendo. Sei que de tudo você já sabe antes de mim, porque as almas se entendem entre si melhor do que podemos entendê-las pelas palavras. Permito-me escrever a você, enfim. Depois de tantas noites a ouvir apenas o ruído do breu e o medo de escrever para poupar o coração das lágrimas, permito-me derramar a tinta pelo papel, desenhando as curvas e os caminhos que fotografam meus sentimentos. Permito que o ballet que vivemos com você, sua presença e suas lembranças, se eternize entre as linhas. Neste ano, você continuou presente e nós ondulamos os sentimentos, entre lágrimas e sorrisos, sentindo falta e compreendendo até que a saudade se elevou e equilibrou os extremos. Vejo-nos admirando a sua beleza em cada cor do céu. Sentindo seu toque a cada gota que cai. Sua respiração a cada brisa na nossa pele. E, além de todos esses sentimentos, sinto-nos sentindo o seu amor todos os dias, em cada viagem, em cada sorriso, em cada lembrança.

Nosso amor por você é infinito – o espaço não o alcança e o tempo não o limita.

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1 ano

4.23.2008

saudades.

23 de abril de 2008

Mãe,

Você sabe, sempre soube, que nunca fui de dizer muito o quanto amo. Que nunca costumei ficar falando que lhe amava, nem ligando ou indo ao seu quarto para dizer. Mas eu sempre soube que você sentia o tempo todo que eu te amo mais que tudo. Que as tantas vezes que brigamos simplesmente eram reflexo do quanto nós nos parecemos. Que, se eu pareço com você, é porque eu aprendi com você, porque eu lhe guardo aqui dentro, porque eu lhe levo para onde vou, porque eu sou você. Mãe, toda a vez que digo que você é tudo para mim, é verdade, sem exagerar em ponto algum. Você é tudo o que sou. Sabe, você é tudo na nossa casa. Tudo na minha vida. E é assim porque tudo o que faço, penso em lhe contar, penso em lhe pedir opiniões sobre tudo o que vou fazer, penso em lhe mostrar as fotos que tiro, as linhas que escrevo, as roupas que visto. Penso em lhe contar sobre as aulas que tive, as provas, as conversas, em lhe mostrar o que aprendi, o que planejo fazer, penso em pedir orientações. Sempre me preocupei tanto em cumprir meu dever de filha, em lhe dar motivos para sorrir, para se orgulhar... Penso em chegar em casa e, simplesmente, ir deitar ao seu lado e assistir televisão, ou conversar, ou discutir para, principalmente, podermos nos arrepender dessas discussões e ficarmos mais próximas ainda. Então, penso em lhe dar um abraço e, nossa... penso em lhe dizer que lhe amo. Dizer-lhe como quando eu fazia – não muitas vezes, mas intensamente – e ver sempre seus olhos lagrimarem quando afirmava que também me amava, por entre abraços e beijinhos. Sinto vontade de fazer tudo isso, mãe. Sinto sim. Com todas as sensações possíveis. Mas não sinto sua falta, porque cada vez que penso em cada uma dessas ações, sinto você por perto, sinto que sua lembrança está tão viva, sinto você tão forte aqui dentro. Sinto você comigo, minha mãezinha. Porque eu sou você. Eu gostaria de poder fazer pelo menos metade de tudo o que falei. Ou melhor, gostaria de fazer só as últimas coisas: lhe abraçar, lhe beijar, e lhe dizer meus amores, e chorar, e sorrir com você. O que me consola é saber que, agora (ou melhor, como sempre), você sabe o que quero fazer por mais que eu não faça ou nem mesmo diga. Pois então, apenas espero que você esteja bem. E saiba que as vontades de você só aumentam, assim como as sensações de que você está aqui.

Eu amo você,

Sua Alê.

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30 dias

3.31.2008

gratidão, orgulho, admiração.

Sempre costumei perguntar o que seria o amor e, na última oportunidade que ela teve, me mostrou que o amor puro era simplesmente a presença dela aqui. A preocupação, a mão que se estendia mesmo quando eu julgava que não precisaria, o ombro que estava ali pra absolutamente todos os momentos, a força que nunca acabou, a esperança que só fazia aumentar, a coragem pra enfrentar todas as lutas, todas as barreiras (inevitáveis). Horas antes de ir, quando só uma visita era permitida e eu consegui poder entrar depois do meu pai, ela me olhou e, ao me ver, seus olhos brilharam tanto como se eles falassem todo seu alívio, toda a sua alegria em me ter por perto. Foi o último momento que ela pôde demonstrar a felicidade que tinha ao me ter ali, ao lado dela; o alívio que sentia... e, no último momento, ela conseguiu me fazer ver que todas as outras vezes na nossa vida que estivemos ao lado uma da outra, era isso que ela sentia e eu não sabia... Ela me fez entender na última oportunidade que teve, o valor que sempre tiveram os momentos que estávamos juntas para ela. Dizia incansavelmente que me amava e dizia para que tivéssemos força, sempre. Ela nunca desistiu. Se aceitou o fim, foi quando ele mesmo acontecia. E o aceitou com a certeza de que fez tudo o que pôde.

Ela sempre fez tudo o que pôde. Lutou de todas as formas, aceitou todos os tratamentos, ouviu nãos e, se lhe fosse possível, ainda, se arriscaria em outras e outras tentativas de cura. Aliás, cura era a palavra que ela mais falava. Ela sempre fez tudo o que pôde. Mesmo no leito da CTI, ouvindo um dos médicos falando que colocaria marca-passo em algum dos outros pacientes, chamou-o para avisar que o médico anterior decidira que não era pra fazê-lo. Fez o que pôde nos dando forças e tendo forças por nós quando fraquejávamos. Ainda que debilitada, em tudo o que fazíamos, a voz dela ressoava nas nossas cabeças apontando direções e ensinando como deveríamos fazer. Ela sempre fez tudo o que pôde por ela, mas por nós ainda antes dela, e pelos outros. Por todos os outros que queriam conversar, que queriam conselhos, que queriam ouvido. Ela se entregou à vida como poucos se entregam e amou como talvez ninguém tenha amado. Ela é força, mulher. Ela é amor!

Em outra visita que pude fazer, ela apertava a minha mão e, quando lagrimei por vê-la ali, longe de nós, apertou mais ainda e só dizia "não minha linda, não..." com um olharzinho triste que me matava por dentro... Contou-me que ela estava bem e que dormia sem dores por lá. Só acordava quando o papai fazia carinho na cabecinha dela chamando "meu amorzinho... meu amorzinho...". A despedida era sempre o que mais doía... Ela puxou a máscara de oxigênio para conseguir beijar a minha mão. Afastamos-nos com nossos beijos e, ah... como eu te amo, mãezinha... Como eu te amo... Mas você pode ir em paz, agora, fique em paz...

Depois de uma vida de lutas, de um ano com todas as forças canalizadas, com os olhos já fechados e a respiração silenciosa, ela recebeu o carinho da filha. E recebeu-a cantando para que dormisse, como fazia com os seus "filhotes" há tempos. Ela sentiu todo o amor e partiu com um beijo, partiu tranqüila para outra dimensão, para estar entre nós. Meu amorzinho... Meu tudo que sempre sonhei e nem sempre enxerguei... Minha mãezinha, você já pode descansar em paz. Já chega de tanto sofrimento, já chega de lutar. Você já pode descansar em paz, meu amor, pertinho de Deus e de todos os entes queridos. Você cumpriu a sua missão.

Você deixou pérolas na terra, se deixou entre nós, em nós. Sempre será motivo de orgulho ter tido uma guerreira como você conosco, nos ensinando a viver, porque os melhores ensinamentos se dão quando temos um exemplo a se seguir quando estamos começando a encarar a vida. Você é esse exemplo. E nós estamos começando a ter uma vida sem você ao lado, mas com você dentro de nós. Levaremos cada olhar seu, cada toque. Você não precisa mais se preocupar com aquela luta que parecia interminável. Agora, em paz, você pode olhar e ver que nos deixou muitas lições e, dentre todas, uma é a força inesgotável que, agora, deveremos nos provar que aprendemos. Enquanto começamos a nos provar, vamos caminhando, nos abraçando, chorando e almejando que a dor, por fim, cesse, muito embora a saudade persista e aumente. Mas continuando com cada palavra que nos dão, cada abraço e cada ombro que oferecem para vermos que não estamos sós e para deixarmos que a força que você plantou dentro de nós, saia e nos levante. Força que você plantou com toda a coragem e esperança que em nenhum momento lhe faltou. Você foi a pessoa mais forte que conheci.

Agora, a sua paz, o seu descanso são o que nos dá força para caminhar e nos impulsiona a sorrir junto a você, porque você está bem. Porque você é o maior exemplo de vida, de força, de determinação... O exemplo que temos a seguir e que nos impulsiona à frente. Porque, descobri já há algum tempo, que você é amor. O amor que eu sempre procurei para tentar entender, estava bem ao meu lado em todos os momentos da minha vida! Estava bem ali, querendo a minha presença ao seu lado... Por mais que eu não tenha chegado a entender, consegui encontrar e ver que o incondicional existe sim, e é você, mãe. Agora, sorria em luz e continue a nos guiar, como sempre você fez.

Nós amamos muito você, mãezinha... como amamos você.

Alessandra Gorayeb Martins

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7 dias



Como é Grande o Meu Amor por Você - Roberto Carlos

Eu tenho tanto pra lhe falar
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande o meu amor por você
E não ha nada pra comparar
Para poder lhe explicar
Como é grande o meu amor por você

Nem mesmo o céu, nem as estrelas
Nem mesmo o mar e o infinito
Não é maior que o meu amor, nem mais bonito

Me desespero a procurar
Alguma forma de lhe falar
Como é grande o meu amor por você

Nunca se esqueça nem um segundo
Que eu tenho o amor maior do mundo
Como é grande o meu amor por você

Nunca se esqueça nem um segundo
Que eu tenho o amor maior do mundo
Como é grande o meu amor por você

Mas como é grande o meu amor por você.


3.29.2008

.preto

a vida é um feixe de luz entre duas escuridões, para nietzsche.


mas alguém me falou que, quando alguém nasce, todos sorriem e só ele chora e que quando alguém morre, todos choram e só ele sorri.

pois que ela sorria em luz e nos guie como sempre guiou.


branco.

12.16.2007

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era o seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só n'um canto, p'ra seu grande espanto, convidou-a p'ra dançar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não quisera ousar
No seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade, enfim, se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz.
(Chico Buarque - Valsinha)

E melhor é saber que assim é em todos os dias.

12.03.2007

Vida.

Noite, silêncio, nuvens, frio, luzes.
Recostados na cadeira, com os rostos quase colados. Os olhos abertos, analisando, cada um, os detalhes do outro. A única iluminação eram as luzes natalinas ao nosso redor. E aquele ar etéreo. Como se uma substância de sonho nos tivesse envolvendo. Aquele sorriso interno.

"Parece que isso é um sonho, que não é real..."

"E essa é a melhor parte, não?
Bem vinda à vida, meu sonho"

[Beijo.]

"Bem vindo ao sonho, minha vida".

[Sorriso.]

O melhor - dentre tantos outros melhores - é poder dizer que retrato este momento literalmente, sem licenças poéticas.
Somos ambos personagens de um livro bem escrito, de fato.

8.17.2007

Viver em sonhos. Um sonho dotado de vida, arbítrio, personalidade. Os sonhos que repetem os dias os dias vividos. Ou a própria vida que surrupiou dos sonhos a magia, a criatividade dos momentos únicos. Tudo se confunde, vida e sonho; desejo e ação. Quando os olhos se fecham, sonhando um momento vivido, terminam, após um tempo, se abrindo suave e lentamente no final de um beijo.


E, depois de abertos, nada mais separa o que foi realidade do que é sonho, ou vice-versa. Misteriosamente, ambos são um. Com aquela luz etérea, do mundo sem peso, envolvendo-nos em uma realidade só nossa. A luminosidade em tons de ouro, róseos e alaranjados, se espalhando sobre a pele, sobre os olhos, pelo ar.


Sentados, vivíamos um, o outro. Aninhados nos nossos braços. Observando o sol partir. Único ponto em movimento no quadro que se estendia em frente aos nossos olhos, além das águas, multicolorida a ondular, misturando todos os azuis e dourados, róseos e alaranjados em silencioso degradê.


Silêncio. O quadro nos envolvia em seu silêncio. Éramos só nos dois entre as pinceladas suaves e leves, traçando os fios luminosos sobre o delicado azul crepuscular. A cena, por si só, já faria do momento, um daqueles inesquecíveis. Mas a cena não estava isolada. E os olhos a esqueciam, buscando o inesquecível nos detalhes do rosto colado. No sentir da respiração, dos lábios, dos corações.


Nesse momento, o inevitável se tornou inesquecível.

5.14.2007

O poema.

O toque se mostra como a realização de um sonho, há muito alimentado. A aproximação é lenta. Como se cada leve movimento houvesse sido construído por uma das noites de sonhos com a outra pessoa. Ou melhor, construído por cada fragmento de sentimento que, efusivamente, se deixava faiscar nas linhas que ligavam os dois pares de olhos ao longo de longos meses. A aproximação é caprichosamente levada por cada nuance – daqueles que só a alma compreende por completo – e que, naquele momento, era transformado em realização. O instante que o precedia era repleto do nada. Do não pensamento. Da não intenção. A cada instante, o momento do toque se aproximava. Como se todos os sonhos confluíssem à mente. Quase o toque. A mente quase em êxtase. Quase o momento de libertar todos os sentimentos, sonhos, súplicas, sussurros encarcerados e abstratos. E o toque se consuma. Quase nem toque é. A tinta desliza pelo papel formando curvas das mais doces, por linhas das mais delicadas. A mente escorre através do toque e se espalha pelo papel, moldando as trilhas da tinta. A ponta da caneta, como a ponta da sapatilha, baila e salta, tão delicada. Tece a tela das linhas e letras, tão completas. O ballet prossegue.
O toque se consuma. Tão suave...

5.02.2007

Estudo.


O grupo estudava. Estudava. Se reunia e estudava. Conversava, ria e estudava.
Então olharam, uma noite, para o céu. A lua sorria e as estrelas piscavam.
E lembraram de viver.
Pararam, sorriram e viveram.



4.27.2007

A Liberdade



Aquele véu que se deixa cair pelo rosto, passando pelos ombros,
tocando o corpo como um sopro.
Aquele véu que é o sonho, ao lado do sono no fim do dia,
à luz das estrelas.
Ao som dos carros solitários que retornam às casas.
Enquanto, aos poucos, algumas das luzes
dos apartamentos vão se apagando.

Aquele véu feito de nuvens, de magia,
de sossego.
Daquela mistura suave de sono e sonho que vicia e alivia.
Que não prende em curva alguma do corpo.
Que, simplesmente,
escorre.

E assim é a liberdade. Aquela que te deixa pensar sem duvidar de si.
Sem tentar encontrar bons argumentos para ser o que é.
Sem temer possíveis e prováveis críticas.
Porque não entendem o que é ter princípios.
É isso o que basta: tê-los.
E não viver uma vida sem qualquer ponto de apoio.

É a liberdade, aquela que te permite falar todos os teus sentimentos.
Aquela que acompanha a certeza de ter te encontrado
contigo mesmo,
e agora te entenderes em todas as nuances.
E que maravilhosa é essa certeza de saberes o que és,
o que queres.
De entender e assumir teus sonhos.
Por mais que os outros os julguem
vãos.

Tal qual o véu, que permite-se escorrer sem amarras,
está a certeza da liberdade.
A firmeza dos movimentos.
A certeza dos atos.
As palavras, que há muito deviam ser ditas,
libertam-se do cárcere que antes as detinha.
Escrevem-se todas,
sem receio de errar.
Escrevem-se, contornando todos os riscos.
Todas as impossibilidades.

E as palavras não saem como berros.
Saem como nada mais do que um leve murmurar,
a ser lido no silêncio de um quarto.
Um quarto que está fora do alcance da visão.
Em alguma esquina que os olhos
lutavam para encontrar.

E as palavras não mais procuram
– por entornos, rodeios, curvas, espelhos –
esconder, como as máscaras,
o que a alma sente.
Como o véu, que desnuda o corpo, passando por cada ponto,
por cada curva,
tal qual um sopro.

A palavra, feita de sonhos, de saudades, de amor.
Sim, uma meta.



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De 15.04.2007

4.12.2007

Haja o que houver

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meu silêncio denuncia minha paz.

3.29.2007

Maquiagem



Ela continua encarando. Como nos outros dias, deixa de lado possíveis todas as possíveis distrações e se concentra. Mira o olhar na pupila. Observa as nuances dos movimentos, das tonalidades. Se aproxima e, sem quebrar o ritual, pega o estojinho de maquiagem, mas ainda não o usa. Parece que a qualquer momento poderá ver a alma acenando lá de dentro, se não fosse tão escura a fenda no centro da íris...

Vai alterando a tonalidade das pálpebras e o pensamento agora não mais se concentra nas imagens refletidas. Esta parte é mais automática, mais subjetiva. E pensa em quê pensará ele quando a olhar. Porque sabe que não precisa ser dito nada, e sabe que sempre que desejar o encantará. E que saberá disso, mesmo no silêncio.

Ela sorri. Olha-se, pensa, e sorri. Antes sempre que pensava em felicidade, mil questões existenciais lhe surgiam. E sempre receava não estar vivendo da maneira que lhe levaria à felicidade. Agora - quando menos tem tempo livre, quando se divide entre faculdade, família, estudo, cuidados pessoais (femininos), faculdade (outra), namorado, amigos e descanso (a menor parcela) - parece que o tempo se lhe multiplicou para sorrir.

Ela pensa sobre o que pode estar faltando - por sinal, uma pergunta que ela jamais faria há algum tempo, talvez por medo de achar faltarem coisas demais. E pensa, e pensa. E, por fim, sente-se completa. Não completa absolutamente, mas se completando a cada dia, a cada minuto, como se cada passo fosse uma conquista em si, não um meio para alcançar algo. Sorrisos não lhe faltam, afinal. E que estranho é sentir-se repleta de alegria e de otimismo que há muito não sentia, ou que sempre sonhara, ou que nunca se permitia.

Ela torna a olhar para as pupilas. E para as maçãs e para os lábios. Será que todos perceberão que de uns tempos para cá algo mudou na sua vida? Não sabe o que deve ser, mas desconfia que é acreditar em si, e fundir diversas vidas em uma. Provar aos que duvidam da sua capacidade que tudo o que faz, além de possível, é gratificante.

Ela olha, agora, através do espelho, para a folha de papel que, há algumas semanas, deixara pousada sobre a bancada com a lapiseira enviesada, deitada, em posição de poema. Sabe que deve escrever. Sabe que um dom não se desperdiça, mas não sabe se é dom, de qualquer forma, seria melhor não arriscar. Mas nunca chega a poesia. O máximo que o grafite faz é um pontinho no papel. Cadê estímulo, cadê inspiração, cadê palavras, que já foram tão abundantes?!

Então a poesia sobre a mesa parece lhe segredar algo. Ela já entendia, já sabia, mas era necessário que houvesse um sinal. A verdade - tornava a olhar para a íris - era que a poesia agora era sua própria vida. Arrancá-la para um pedacinho de papel seria tão impossível, e tão intensa vinha sendo ela nos seus dias... Mas ela sorri novamente, enfim, pode afirmar com toda a certeza que é feliz. E pega o rímel para finalizar o ritual. Toca o despertador. Acabou o tempo dos cuidados pessoais... Esta noite ainda reserva faculdade, namoro, família, descanso...

2.12.2007

A anti-inércia.

"De repente,por uma fração de segundo, sentimos que toda a nossa vida está justificada,
nossos pecados perdoados, o amor é sempre mais forte e pode nos transformar definitivamente.
Mas também é nesse momento que temos medo. Entregar-se por completo ao amor,
seja ele divino ou humano, significa renunciar a tudo, inclusive ao seu próprio bem-estar,
ou sua própria capacidade de tomar decisões. Significa amar no mais profundo sentido da palavra.
Com o amor é assim: ele chega, instala-se e passa a dirigir tudo."
Paulo Coelho (A Bruxa de Portobello)


Às vezes o coração resolve dar passos à frente sem consultar o passado. Às vezes o que fazemos parece não ter sido de nosso arbítrio. Às vezes é como se algo nos impulsionasse a tomar a decisão mais improvável. Às vezes esta decisão acaba sendo a certa. Às vezes as palavras somem repentinamente. E às vezes louvamos o silêncio de um luar. Às vezes as almas parecem se entender sem som algum. E então descobrimos que, sobre o amor, só o tempo dirá. Às vezes aceitamos sem pensar. Às vezes lutamos para confiar. Às vezes tudo se mostra complicado, escuro e repleto de lágrimas. Mas às vezes aceitamos essa visão com a promessa dos sorrisos que está por trás. Às vezes o medo de amar é superado, deixamos nossas mãos serem tomadas e permitimos um par de pegadas ao lado das nossas. E quando o coração chora baixinho, às vezes fazemos novas promessas consolando. Às vezes um abraço e um olhar se tornam eternos. Quando uma redoma de vento parece nos isolar do resto do mundo. Às vezes os lábios segredam suas palavras mudas, o tempo parece passar ao contrário, o corpo parece deixar a alma um pouquinho mais folgada, saindo pelos poros. O coração parece ser o único a entender. E às vezes nos assustamos com isso. É quando sentimos uma certa mágica. É quando nenhuma palavra pode explicar. É quando, mesmo sentindo, lutamos para acreditar. Às vezes entendemos, em um segundo eterno, tudo o que muitos sonham entender em toda a sua vida, quando o universo inteiro parece parar e se refletir dentro daquelas almas abraçadas ao silêncio do luar.
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1.30.2007

Dia da saudade

é hoje. e, como no dia do trabalho (que não se trabalha), não devíamos sentir saudades...

1.28.2007

Letra.

Às vezes, mesmo sem estar com os olhos úmidos, sinto como se estivesse com as lágrimas prestes a escaparem, se o peito apertar um pouquinho mais. E é assim que elas me impelem a escrever, quando a letra sai feia e meio torta, pela visão turva que se tem. Por que não escrever quando a visão está limpa e clara? Talvez por algo que li hoje mesmo em algum lugar: os poetas tem letra feia para enganar as palavras. E as palavras se escrevem feias para enganar os poetas.

12.25.2006

Vãmente.


E quando chega o tempo, a cidade veste o manto de luzes. Aquele manto bem bordado, guardado só para ocasiões especiais. O manto que parece ter existido desde que o mundo é mundo, embora Jesus não tenha nascido há tanto tempo. E quando já é tempo, o verde das mangueiras parece cintilar por muitas vezes mais, como se a própria esperança - aquela meninazinha de olhos verdes - os estivesse colorindo. Os presépios emergem nas esquinas, pinheiros brotam nos cimentos e todos pregam um sorriso no rosto, distribuindo presentes, doações e pensando que já fizeram sua parte para um mundo melhor [isso em apenas um tempo em especial].

As ruas parecem virtuais e, olhando-se de cima, a cidade é como um céu acessível aos nossos pés, tão caprichosas são as estrelinhas elétricas fixadas nas varandas, árvores, janelas... E as estrelas, e os anjinhos, e aquelas bolas meio bolhas que tanto dão vontade de apertar, mas que quebram. É como se tentássemos fazer um céu particular, como se não mais precisássemos olhar para cima ou para trás: a luz está ao nosso redor.

É como se as famílias lembrassem o que é a união; os ricos lembrassem o que vemos nas esquinas, desabrigados; os umbiguistas lembrassem o que está do lado de fora. Então, tudo o que nos deixa com um aperto no peito começa a ser substituído discretamente, vagamente, vãmente. Os presentes semeiam sorrisos que provavelmente, antes, não passariam de torcidas no canto dos lábios. As luzes ofuscam as lágrimas e os planos para um novo ano disfarçam as lembranças doídas do que já passou. O manto estrelado cria um céu de esperança ao nosso lado, iluminando nossos sorrisos e nos fazendo sonhar.

Mas, com o tempo, os sorrisos pelos presentes começam a voltar a ser pequenas torcidas nos cantos dos lábios. Mas, lá no fundo, as lágrimas continuam, o peito ainda aperta e os planos para o novo ano insistem em refletir não "o que pode vir a ser" e sim "o que poderia ter sido". Mas, em maiores proporções, as luzes nas árvores, janelas, varandas, pinheiros, presépios e bolas de bolhas prendem nossos olhos no chão. E o que é ofuscado, ao lado das lágrimas, é a imensidão do que está acima das nossas cabeças, fora do nosso alcance, das estrelas, da lua. É insubstituível.

Brinquedo que não tem.


"Papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dar. [...] Bem assim, felicidade eu pensei que fosse uma brincadeira de papel. Já faz um tempo que pedi mas o meu Papai Noel não vem. Pode ser que já morreu ou, então, felicidade é brinquedo que não tem." - Assis Valente

Mãe:

_ Mas filha, o papai Noel falou que não pode ser um presente tão caro porque ele deve agradar todas as crianças.

Quem me dera poder ainda ter os olhos dela e sonhar com o Papai Noel...

Filha:

_ Ah, se ele falou, tudo bem. Vou escolher outro.
Quem me dera poder crescer e conhecer pessoalmente o Papai Noel...

8.11.2006

Anacrônico.

Não vou te dizer, nem te chamar para me ouvir. Não vou te ligar ou olhar na sua direção. Não enquanto você disser que escuta. Não enquanto você me olhar. Não vou te dar resposta enquanto você a pede só por entrelinhas. Não vou te seguir, mas talvez você olhe para trás. Não finja que não me vê, ou que não vê, simplesmente, a nós. Mas não pense que te esqueci. Te reacendeste em mim por uma única noite que te vi. Finjo também não olhar. Finjo não sentir teu coração no abraço. Não ler tuas frases avulsas. Tuas fotos semi-ocultas. Mas não consigo fingir que te esqueci. E ficamos num vai-e-vem. De perguntas respondidas por perguntas. De olhares perdidos um do outro. Nos fingindo, sutilmente, anacrônicos. Fingindo que o nosso tempo passou. Mas entre tantas entrelinhas, um olhar cruza no outro. E seguido do reencontro, mais um ponto de renda tecido. Jogamos o nosso jogo. Insistimos em pedir respostas. Mas eu te digo: não quero mais procurar uma solução. Não enquanto a conhecermos tão bem. Não enquanto a tivermos diante de nós, a poucos passos. A um olhar mais longo. A uma pulsação mais forte. Talvez ainda penses que não te senti tentar medir a minha naquele dia. E talvez seja melhor assim. Agora, não me peça uma solução. Não finja dizer não, que o tempo já passou. É bom duvidar, ficar no escuro pensando no que significou um abraço, um olhar cruzado. E é bom pensar se, quem sabe, finalmente o tempo não já chegou.
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Agora a mente já não está tão frenética entre imagens. Aquela figura não a povoa há tempo. Desde o reencontro. E, no momento, apenas um sonho.
Foto:Alem e Alê.

8.01.2006

"Quem acredita sempre alcança".
Abrindo o Orkut, minha Sorte do dia diz: Todos os seus sonhos serão realizados.

No dia seguinte, Pare de procurar eternamente. A felicidade está bem ao seu lado. Milagrosamente, quem me veio à mente não foi ele. Há algum tempo, resolvi acreditar que, assim como ele vive sua vida, devo viver a minha. Em seu lugar, surge aquela imagem, como aquele eterno sonho, quando o relembro. E bastou um reencontro. Voltei a sonhar com ele.

7.29.2006

Em belém, depois de uma meia "manhã" de viagem, me deparei, novamente com a tal da internet. E, sem perceber, me vi perdida nos seus mares. Eu que jurava que já havia me libertado dessa maneira sutil de manter pessoas ancoradas às cadeiras. Agora, fora de casa, encontro-me com meu diário. Acredito que vou adotar essa idéia de verdade. Não há nada melhor do que descarregar tudo que senti durante o dia em qualquer tempo livre que eu possa encontrar. E, na volta de carro resolvi acrescentar no início dos escritos a bela letra de Legião Urbana. Agora é como um mantra para mim.
Estou no aeroporto. A família está unida à espera da minha avó que retorna de mais uma das suas viagens, muito embora essa não tenha sido das exóticas que costumava fazer. Uma simples, aos seus olhos, apenas para relaxar, mudar a rotina e voltar a dar valor a atos que se torrnaram automáticos pela repetição.
Na mesa ao lado da minha, no café do aeroporto, acaba de se sentar uma figura nada comum aos dias atribulados. E acaba por ser por sua causa que começo a escrever. Um senhor de terno preto e calça social um tanto folgada, verde clara, puxando um pouco para lima. Por baixo do terno, uma blusa, também preta, que não pude distinguir com certeza absoluta se era de algodão (dos que pinicam) ou de lã fina. Perto da gola, fechada por botões pretos envoltos em fios dourados.
Tem uma mania do coçar o topo da cabeça para o lado esquerdo com a mão direito. Mas isso pode ser uma mania, de fato, ou simplesmente porque leva um livro com capa laranja com a outra mão. Prefiro acreditar ser mania. Cai bem com seus olhos pequenos e curiosos que olham com uma profundidade disfarçada por ar superficial. Também pode ser que os olhos nem sejam tão pequenos, por culpa de uma possível hipermetropia ou presbiopia (soa mais romântico) emoldurada por aros dourados de óculos finos e redondos.
Abaixo do olhar, um nariz protuberante acentua a silhueta e completa o semblante ao combinar com a fenda de onde seria a boca. Há alguns minutos, ele ia a um caixa eletrônico, e passou um bom tempo lá. Depois se desloca a um outro, com a coçadinha no topo esquerdo da cabeça novamente. O que me fez escrever foi seu ar de escritor. Será que é algum anônimo que escreve aquelas coisas que todos gostariam de ter escrito mais não souberam como? Ou será que escreve tecnicamente como um psicólogo ou sociólogo sobre as pessoas poro causa das suas observações? E todos esses pensamentos vieram por causa da moldura do rosto curioso: um cabelo até metade do pescoço grosso e curtinho. Branco pintalgado de preto. Aberto, desarranjado. Passando descuidadamente por sobre uma vaga calvíce e uma testa estupenda.
Agora levando os olhos para o novo caixa eletrônico e não tenho mais vestígios do senhor. E não posso mais descrever quem não vejo. O som apita anunciando um novo embarque. O avião da minha avó já está no chão.
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Foto: Parece do Centur, tirada há alguns anos.

7.27.2006

O que são os sonhos? Desejos, medos, glórias, ânsias infundadas ou o quê? Alguém me explique, por favor!
Dessa vez não, não tive um sonho como no início da narrativa. Acabo por reencontrar alguém. Alguém que sempre desaparece, fazendo com que cada reencontro termine por ser um momento de matar as saudades. Mas os abraços com os quais ele tanto se identifica acaba por não ser o suficiente, pelo que percebo.
Por que o assunto de sonhos? Simplesmente pelo fato de parecer que sonho toda vez que o vejo. Uma espécie de impossibilidade que se torna palpável em breves momentos. Que surge com força, sem aviso prévio. E depois, da mesma forma que surgiu, vai embora. Algumas vezes, para não dizer que não dou importância a isso, sua imagem surge na minha mente subitamente, sem porquê. Pode ser à noite, pode ser em sonhos, de fato, ou em meio a coisas que costumo fazer.
E por que será que, muitas vezes, surgem-me avisos de que o verei? Por que não nos olhamos como o fazemos com os outros amigos que nos acompanham? E por que breves momentos bastam para fazer com que eu, pelo menos, fique tramando fantasias quando o sol vai embora, roubando tempo do meu sono?
É como se fosses um eterno sonho. Eu diria até recorrente... Simplesmente porque não botamos um fim. Porque nos olhamos de forma que só nós percebemos. Senti quando me olhaste. Quando retribuí, nem acreditei. Percebi quando vieste, com tua roda de amigos, para o lado da minha. Não, não estou reclamando. Sou adepta do suspense. Também não estou pedindo para entender o que queres ou não queres. Que seja eterno enquanto dure - com o perdão da paráfrase.

7.20.2006

A areia continua como a deixamos. Mas nossos corações desenhados se apagaram. Nossas sombras foram embora, e refletem-se afastadas. As línguas do mar continuam tentando beijar os pés. As conchas ainda se exibem, incitando-me a colhê-las do jardim fluido que as plantou. Ainda vejo as trilhas sem início nem final daqueles tantos caracóis, caramujos, carangueijos estendendo-se sobre a areia úmida, plana, sem nossos corações.
E quando o sol começa a se "arrosear", e as núvens começam a se enrolar ao seu redor, tracei com um cabinho de folha que a maré deixou, uma tímida e discreta declaração. E a areia guardou, como sempre o fez. Não há melhor guardiã de segredos que a areia das praias. Não há maior cúmplice de juras nem mais fiel que esta que se estende serenamente como travesseiro do mar traiçoeiro.
As rochas não. Elas espalham para todos que puderem ler todos os corações. Assim como os troncos das árvores riscados com estiletes. Por isso que gosto de flores. Elas encharcam de sentimentos momentos que se eternizam. E não contam a ninguém. Murcham ou despetalam-se. Depois disso, nada de vestígios. Apenas a pétala que guardo dentro do dicionário.
E é por isso que gosto da areia. Que brilhou alaranjada com a pequena frase escondida, pouco antes de eu ir embora. Que guardou até segredar ao mar, seu amante, antes de deixá-lo a apagar. E quase uma gota salgada a mancha antes do mar. Era uma pérola de lágrima, nascida em um descuido de momento, que os óculos escuros - outros confidentes - mantiveram distantes de olhos de outrem. E a delicada frase, em inglês, como ele costumava "poemar", ficou descansando em paz. No dia seguinte, o Ainda te amo não estava mais lá.

7.18.2006

A caminho da praia, costumo viajar em leituras. Idade Média, Artur (o Rei que não foi rei), Guinevere, Derfel, Merlin, Lancelot, Morgana. Tudo voando ao meu redor, me deixando entre estradas com casas e fortalezas de pedras, entre gritos e paixão nas guerras, até mesmo ansiando por usar uma lança em uns tantos anos atrás. Imaginando qual seria o símbolo de meu escudo. Acima de qualquer coisa, desejando viver naquele tempo onde as palavras valiam mais que qualquer coisa e eram as guardiãs da vida.
"Juro que sempre lhe protejerei", um beijo na lâmina de uma espada e a certeza de um futuro ao lado de alguém. Juramentos inquebráveis. Quando, dentro de um desses sonhos através das linhas, penetra um som.
"Já conheci muita gente
Gostei de alguns garotos
Mas depois de você
Os outros são os outros
Ninguém pode acreditar
Na gente separado
Eu tenho mil amigos mas você foi
O meu melhor namorado
Procuro evitar comparações
Entre flores e declarações
Eu tento te esquecer
A minha vida continua
Mas é certo que eu seria sempre sua
Quem pode me entender
Depois de você, os outros são os outros e só
São tantas noites em restaurante
Amores sem ciúme
Eu sei bem mais do que antes
Sobre mãos, bocas e perfumes
Eu não consigo achar normal
Meninas do seu lado
Eu sei que não merecem mais que um cinema
Com meu melhor namorado
"
Uma melodia mais calma que as demais. Como se estivesse colocada no lugar errado. Desperto. E antes não tivesse despertado. Se vivêssemos naquele tempo, ah... as tantas juras que fizemos não estariam agora como fumaça em um passado distante. Um passado que era tão eterno... E não teriam outros. Seriam só tuas flores. Tuas canções. E eu fecharia meus olhos feliz, quando estivesse escuro e a lua sorrisse para mim como nesses dias.
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Para deixar mais claro, é um diário do coração. Não segue regras, nem tem começo nem fim. Pode continuar por outros posts ou acabar em um só.

7.16.2006


Por tantas vezes me flagrei olhando para dentro, lançando culpa atrás de culpa nas minhas próprias costas por nada. Por puro prazer de me martirizar. E me via chorando através das imagens tremulantes que as lágrimas proporcionavam. Eram momentos melancólicos, saudosistas. Recordando, em retratos, flashes felizes. Desejando secretamente retornar em alguns segundos, por alguns segundos. Meses e meses se passam. Quase um ano de dias sucedidos. Por tantas vezes já convencida de que meu coração só bate por mim e por mais ninguém.
Tento acreditar em mim. Tento começar novamente. Insistem em me dizer que um grande amor termina apenas quando um outro ameaça ocupar sua vaga. Já ameaçou e nada, o tal do amor não foi embora - ou pelo menos finge que não foi. Vejo rostos que não me atraem, a não ser temporariamente. Recebo palavras e atenção de quem ainda insisto em não notar. Viajando, penso poder me afastar de meus sonhos antigos. Talvez um novo travesseiro proporcione novos sonhos, quem sabe. Então, na primeira noite, eu sonho.
Um sonho belo. Inesquecível. Repleto de paisagens. Mas não, o que não me deixará esquecê-lo foram os sentidos. Por entre os mais belos retratos, defronte aos mais encantadores planos de fundo, estávamos nós. Eu e ele. Frente a frente, como antes. E bastaria, se o sonho quisesse me deixar pensativa. Mas não, foi além. Pude sentir seu toque com o vento salgado nos meus cabelos, que voavam junto aos dele. Pude sentir meus olhos enbaçarem quando os rostos se inclinavam e, na magia do sonho, passei a nos ver com os olhos encharcados. Como se estivesse vivendo e, ao mesmo tempo, assistindo à cena. Enfim, até seu hálito pude sentir quando sussurravas juras antes do beijo. Depois não me lembro. Depois podia não ter mais nada. Podia ser uma pausa para posterior continuação. Mas eu acordei. E o travesseiro encharcado botava um ponto final.
Quisera eu não ter acordado. Nem agora nem antes, quando houve chances de não acabar. Incrivelmente, minha vida corre independentemente do que sinto no meu peito. Crio laços e mais laços, cultivo amigos, inicio sentimentos. Acontece que eles teimam em não ir além. Quando está escuro e a lua brilha, não penso em outro alguém senão ele. E sou feminista o bastante para ter certeza de que não preciso de homem algum para viver feliz. Mas sou feminina o suficiente para admitir que existem momentos nos quais necessito de um abraço, um afago, um olhar que penetre na minha alma e que, acima de tudo, a entenda.

5.24.2006

P.S.:

Dois textos seqüenciais. Dois textos complementares. Ou duas fotos de ângulos diferentes. Teriam mais. Foi um surto. Foi um escape. Extravasou... Um momento de fraqueza. Ou de forças reunidas de um berro do coração. Textos póstumos. Fora do tempo. Textos perdidos no peito. Lutando há meses para sair. Suprimidos. Sufocados. Invertidos, qual negativos, por tanto tempo. Até que eu enfim aceitasse. Quisera eu ter a força de encarar tuas palavras. Mas elas podem ferir. Quisera eu ver novamente os reflexos da tua alma. Quisera eu ver o sonho se materializar. Eu bem que poderia dormir novamente. Fechar os olhos. Continuar a sonhar de onde parei. Sempre é difícil fechar os olhos depois de um dia atribulado. Por isso vêm os posts. Escritos póstumos. Post Scriptums.

Forma-se a tríade. O três. Mais uma vez.

5.22.2006

Clepsidra.

Existe um tempo que insiste em derreter. Escoar. Retornar. Que dá voltas ao meu redor.
Que se nega a cair pelo ralo. O tempo se pendura por sobre os ombros e pesa. Pesa
Pedindo e forçando o pescoço. E me faz olhar através de si. Faz-me lembrar
Que eu parti. Um espelho que se tornou mil. Um coração que se tornou
Dois. Um caminho que se bifurcou. E parti. Com passos ante os
Passos.E passeios com a cabeça erguida. Com os olhos
Adiante. Fingindo não querer te ver. Fingindo te
Esquecer. Firme. E filmes teus me passam
Pela mente. Mentes. Minto. Não quero
Dizer saudar-te. Não quero dizer.
Não abro a boca. Sufoco.
No meu silêncio,
Grito.

Suspiro.
E choro com
Olhos fechados. Não
Sufoco.Desespero. Troco
De mundo.Inverto-me. Junto os
Cacos. Meu rosto disforme te vê refletido.
Vê-te como a um tempo, sem maquiagem. Como
Havíamos combinado. Lembro de ti. E confesso para mim.
Olho para trás. Por cima do ombro. Encarando o tempo escorrido.
Fantasio. Ouço-me falar o que queria. E ouço-te me responder. Brinco
De ser criança. Imersa no mar de nuvens que semeamos. Olho o relógio na
Parede girar ao contrário. Às vezes fico sem respirar, afogada nas tuas lembranças.
Se hoje, talvez fosse diferente. Talvez. Mas deixa-me chamá-los de pensamentos, apenas.
E deixa-me confundir-me. Não sei mais de nada. Por mais contraditório que pareça. Vivo
No meu espelho. No meu escuro. No meu silêncio.
Deixa-me te esquecer. E respirar.




Alessandra Gorayeb Martins
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Post: na realidade, não é inspirado por The DaVinci Code.
Imagem: improvisada.
Era para ser uma ampulheta. Pela simetria, mais lembrou o cálice e a lança.
Sem me opor à ordem das palavras, que, por sinal, nunca são inocentes, resolvi deixar minha idéia original de tempo cíclico [que inclusive se encontra no texto anterior] de lado. Aceitei o espelhamento. Aceitei o encaixe. O toque puro de duas almas que se encontraram/ão. Talvez fosse isso que eu quisesse dizer.
Do outro lado do espelho, eu vejo você.

Fantasia.

Voltei a ficar afogada em pensamentos. São muitos que terminam por, às vezes, não me deixar respirar. Debaixo desse mar, vejo tuas imagens passarem. Me sinto sufocar. Facilmente, eu poderia confundi-los com saudades... mas, por pensar, e me prender a isso, acabo por temer qualquer classificação. Deixa-me chamá-los de pensamentos, apenas. Permita-me deixar de lembrar de ti. Deixa-me pensar que te esqueci. Deixa-me só, se estás feliz. E se fui eu que apareci, perdão. Não foi só tu que amaste. Nem só tu que não esqueceste. Me confundes. Ou só eu me confundo. Me prendes. Por mais contraditório que sejas para mim. Por mais bonzinho que eu te ache. Por mais irritada que tenha ficado, ou que às vezes fique. Mesmo que não imponhas tua vontade, ou que fales demais, ou que demores a aceitar o fim das discussões. Talvez, se fosse hoje, tudo fosse diferente. Talvez eu pudesse manter-me imersa naquele mar de nuvens que semeamos. E meu corpo não clamaria no meu silêncio infantil. No meu medo imaturo. Mas o hoje continua berrando que já passou. E o tempo continua se dissolvendo ao meu redor. Abro minha gaveta e te vejo ao meu lado. Olho meu relógio girar ao contrário. Saio e te vejo nas esquinas. Fecho meus olhos e brinco de fantasiar. Brinco de dialogar, no meu escuro, no meu suspiro. E brinco de ouvir de ti o que queria ouvir. É hoje. E te amei. E uso o verbo no passado. Me confundes. Não sei mais de nada. Deixa-me chamá-los de pensamentos, apenas.
Não imaginas o quanto tenho pensado e evitado pensar nesses dias. Acordaste, novamente, em mim.
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Imagem: Esboço feito com olhos entreabertos.
Releitura em uma madrugada.
Inspiração: Salvador Dalí

4.18.2006

O Caso dos Exploradores de Cavernas


▪Processados e condenados à morte pela forca pelo tribunal do Condado de Stowfield, os acusados recorrem à Suprema Corte de Newgarth, 4300 d.C.

●Exposição dos fatos conforme narrado no livro.


Os quatro acusados pertencem à uma organização amadora de exploração de cavernas. Um dia, ao explorar uma caverna de rocha calcária, ocorre um desmoronamento que obstruiu a entrada, deixando os cinco exploradores impossibilitados de sair.
Pela demora no retorno dos exploradores, é enviada uma equipe de socorro. São feitos gastos elevados com um enorme contingente de homens e máquinas com diversos especialistas em vários setores estudando uma forma de desobstrução. Ocorrem deslizamentos sucessivos, ocasionando 10 mortes de operários. Os fundos exauriram-se e a libertação foi realizada apenas no 32º dia.
Os exploradores estavam apenas com escassas provisões e a caverna era inerte. Teme-se morte por inanição. Possuíam, também, um rádio à pilha. Quando a equipe externa estabelece contato, no 20º dia, um médico afirma que têm escassas chances de sobrevivência por mais 10 dias. Os prisioneiros perguntam se podem sobreviver com a carne de um deles. O médico, a contragosto, responde afirmativamente. Whetmore (o porta-voz do grupo) pergunta se, tirando na sorte um dos cinco, haveriam problemas morais. Nem o médico, nem o juiz nem o sacerdote da equipe de resgate quiseram se posicionar ante a questão. Os exploradores desligam o rádio.
No 23º dia, Whetmore é comido. Segundo as investigações, na hora de tirar a sorte, após quatro prisioneiros terem lançado seus dados, Whetmore hesita e é forçado a aceitar uma vez que todos assentiram com sua idéia. Joga o dado e é o escolhido. Depois de tratados física e psicologicamente, os quatro exploradores são denunciados.

▪No julgamento, os jurados pedem que o juiz julgue o caso: condena-os à forca. Os membros do júri pedem prisão preventiva de seis meses e que o caso passe pelas mãos de quatro juizes.

Foster, J. – Inocenta-os. Utiliza os argumentos do jusnaturalismo e de um Tribunal da Natureza: estavam longe da nossa realidade “Há algo mais no destino desses homens”. Relaciona à excludente da Legítima Defesa.
Tatting, J.Neutro. Possui dúvidas. Discorda dos argumentos de Foster. “Se um fizesse aniversário enquanto estava aprisionado, longe do nosso juízo, comemoraria só quando estivesse livre?”. Afirma que agiram intencionalmente.
Keen, J.Condena-os. Discorda de Foster. “é convicção humana de que o assassinato é injusto e que algo deve ser feito ao homem que o comete”. Não aceita procurar lacunas na lei. Para ele, a condenação ao homicídio permite felicidade e despreocupação.
Handy, J.Inocenta-os. Acha que devia ser analisada a natureza do contrato. Analisar os fatos à luz da realidade humana e não de teorias abstratas. Os juízes são os que mais se afastam da realidade. Levar em consideração a opinião das massas.



●Exposição do julgamento

▪Veredicto 5º, a partir do julgamento no Tribunal de Newgarth.

▫Gorayeb M, J. – Em posse do conhecimento dos acontecimentos por conta da repercussão na mídia, era de se imaginar que fosse acabar pousando em minhas mãos este caso extraordinário. As mais diversas opiniões me chegaram aos ouvidos. Os clamores do público indignado, ou mesmo piedoso e leigo, surgiam de toda parte como burburinhos de mesa de bar quão impressionante era a abrangência do assunto. Minhas idéias retorceram-se pelos mais sinuosos caminhos e confrontavam-se com repulsa mútua tão grande a ponto de pensar marcar consulta a psiquiatras. Com o caso em mãos, vejo minhas suspeitas, a respeito de um suposto esclarecimento e calmaria nos pensamentos, estavam equivocadas.
Meus colegas assumiram posições corajosas em ambos os lados do incidente. Até o atual momento em que redijo estas linhas, não possuo uma posição a respeito do caso. Nunca imaginei que fosse presenciar, quanto mais participar, de evento com conseqüências, possivelmente, tão avassaladoras. A única certeza, porém, é que a condenação à forca seria um tanto paradoxal, tendo em vista que os esforços para o prezo da vida foram absurdamente grandes – incluindo enormes mobilizações e o preço de 10 mortes. No entanto, minha certeza firma-se justamente no ponto que não me cabe tocar, obrigando-me a voltar à resposta objetiva de sim ou não para algo tão subjetivo.
As condições descritas são excepcionais. A dúvida e receio na hora do contato com os réus, ainda enclausurados, retrata o sentimento dúbio de ímpeto para salvar vidas e de repúdio à prática da morte (observado com a resposta à antropofagia do médico a Whetmore e a posterior recusa de opinião por parte do próprio médico, juízes e sacerdotes presentes quando questionados sobre a moralidade da possível futura ação). A questão exposta, ainda em vida, pela vítima, explicita a preocupação prévia quanto aos acontecimentos, penas, preconceitos quando fosse-lhes cedida a liberdade. Atento, assim, que os prisioneiros tinham uma leve idéia, ao menos, das conseqüências.
O enclausuramento, portanto, não os separou instantaneamente do mundo em sociedade, onde, como o colega Foster cita, é regido predominantemente pelo Direito Positivo. Tampouco os fez perder a noção da realidade para além dos limites da caverna. Diante do silêncio no rádio de comunicação, provavelmente, perceberam que seria impossível colocar os expectadores do caso de forma que estivessem a par da situação real, tomando o direito de julgar, por eles mesmos, a melhor solução, sem comprometer os outros e evitando uma morte iminente.
A outra solução, que muito pulula na mente de muitos, sobre a possibilidade de esperar que o mais fraco morresse para que os demais se saciassem, não demonstra efetividade se analisada friamente. Não há garantias posteriores, quanto mais anteriores, de que apenas um prisioneiro estivesse em estado de maior inanição, sendo possível que mais de um estivessem em mesmo nível, uma vez que vêm trabalhando junto, submetidos às mesmas condições. Esperar pela morte poderia ser tarde demais. E, se ainda isso fosse esperado, nada garante que a denúncia à antropofagia não seria realizada.
Conforme meu caro colega Keen, concordo que a condenação dos homicídios proporciona uma vida tranqüila. O §12-A do NCSA prevê que “Quem quer que, intencionalmente, prive a outrem da vida, será punido com a morte”. Como parece ser de consenso majoritário, o descumprimento da lei pode trazer danos irrecuperáveis, incluindo muitas novas exceções se esta for concedida. Cabe analisar algumas questões: os réus privaram a outrem da vida. Agiram intencionalmente? Tomando a linha de raciocínio de meu colega, o que faz com que determinada ação seja tomada? Uma razão prévia, seja ela com fundamentos ou não. Essa razão prévia permite outra solução, que não seja a morte? Aí está o ponto que vossas excelências precisam se deter!
O que fez a Legítima Defesa ser aprovada no Tribunal e colocada como ponto crucial na investigação dos fatos de um delito? Voltando ao assunto em questão, sem mais delongas, nossos réus se encontravam em uma situação que lhes dava apenas duas opções: morrer, todos, a esperar socorro (sim, como o caso descreve, a possibilidade de sobrevivência sem o delito seria de 10 dias; a libertação ocorreu 12 dias após o contato); ou realizar a proposta, ironicamente, feita pela vítima. Assim como na Legítima Defesa, das duas opções, é julgada e absolvida a segunda.
Os indivíduos encontravam-se em estado de necessidade, previsto no Código Penal, onde aquele que “pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se”. E, conforme o colega Tatting coloca, “o homem que repele ameaça à sua vida, age em resposta a um impulso”. Assim é vista a Legítima Defesa. E o perigo da morte por inanição, não é também assim? Afinal, a Constituição reputa direito fundamental à vida. “Se reputa legítimo até mesmo tirar a vida a outrem em estado de necessidade de salvação da própria”.
Os quatro sobreviventes, mesmo que não estivessem em pleno estado natural (por ainda terem as noções de conseqüências do juspositivismo), faziam, no período de clausura, o uso do jusnaturalismo. Como vós, caso lhe fossem retiradas as leis, ou caso fossem expostos a situações que não são supridas pelas mesmas; podendo essas situações serem provocadas pelo isolamento físico, por culturas diferentes, ou mesmo pelo tempo. Da mesma forma que readaptamos nossas leis para nossa cultura e necessidades atuais, deveríamos levar em consideração a readaptação do §12-A para o caso em questão. Nossa lei não prevê determinadas situações fora do nosso cotidiano.
Mesmo que o caro Keen se recuse a admitir, a constituição possui lacunas, principalmente se exposta a situações extraordinárias. O caos por essa exceção não será implantado, simplesmente pelo fato de não acontecerem casos como esse todos os dias! E, se por acaso vierem a acontecer, é nosso dever atualizar os códigos. Porque a história muda. Nós mudamos com ela e temos que nos adaptar, como viemos fazendo até o então momento.
Por tudo que apreciei no presente processo, e ante o exposto, com base nas provas, meu veredicto é inocentá-los. Não há como julgar com uma ação ou um fato muito usado no passado como crime, aplicando uma Lei do presente, ou proibir atos aceitos em diferentes culturas com base em apenas uma cultura.Julgo que não há como puni-los por optarem pela vida, utilizando a proposta da própria vítima. Assim sendo, julgo os acusados inocentes.



Alessandra Gorayeb Martins.


Newgarth, 14 de abril de 4300 às 11:00 a.m.




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Trabalho de Introdução ao Estudo de Direito. Professora Eva Franco.

2.09.2006

Recompensa



A véspera previa bons ventos. Outras palavras entravam facilmente. O coração esteve aberto. Foi, por elas, aberto. E, ao recostar a mente, o paradoxo que assim ocorrera, retorna. A aflição e o sentimento que aflorava, despertado: o alívio.
Por hoje, os sentimentos não se deixaram ficar quietos para eu expressá-los. Saltaram do peito pra fora. Choros, sorrisos, gritos, pulos, segredos, desejos, surpresas, conquistas. Finalmente, o momento que mais esperei. Finalmente o sonho que tanto se repetiu nas noites se passou ao meu redor! E ainda tenho as marcas dessa vitória.
Os ponteiros já completaram suas voltas. Pelos olhos, a tentativa de eternizar as imagens. Momentos que não se repetirão. O tempo passou. Os onze anos se destacaram em um piscar. As paredes, os rostos, as pontes construídas. As vitórias, tão recentes, sopram quentes aos ouvidos e segredam suas promessas. As derrotas, rotas, estendem as mãos e me lançaram mais a frente.
E nunca os sorrisos desejaram tanto eclodir. Nunca as lágrimas foram tão impetuosas a jorrar. Nunca o corpo teve a coragem de se descontrolar, e tremer, e soluçar. Nunca um peso tão grande saiu com tanta rapidez dos meus ombros. Senti, enfim, a brisa fresca como que me chamando, de encontro aos sonhos. O costume foi quebrado, a mente foi recompensada. Esfria. Como a água que escorre depois daquele banho que beija todas as marcas em religiosa reverência. Foram palavras que me deram um ombro. Foram palavras que permitiram ao coração bater. Palavras que, antes, pairavam por entre os dedos no teclado do computador. São as palavras que aliviam, mais ainda, o acúmulo dos sentimentos por todos esses anos. Enfim, com um destino...

Alessandra Gorayeb Martins

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Detalhes - na foto:
Meu olho, meu perfil e a terceira questão da prova - Física (esta, em outro sonho aguarda)

12.27.2005


Acordei com uma paixão nos olhos. Um sorriso raro nas pálpebras. Uma alegria serena, ao compasso do coração, a balançar as cobertas. Aquele sentimento puro. Embalado por palavras. Infelizmente. Podiam ser palavras ditas ao ouvido. Guiadas pelo calor da voz. Mas estavam jogadas na internet. Saíram de uma casa. Pregadas na tela por dedos que gritavam em silêncio. Pediam, sendo independentes. Dedos que esperavam o toque. Mas que tinham até suas palavras, únicas companheiras, roubadas pela tela. Ficavam só. No frio. Sem nem mesmo o calor da voz.

Os suspiros silenciosos tocavam meus olhos. As palavras chegavam pela mesma tela a mim. Eram novas. Talvez eu já as conhecesse. Podia tê-las escrito. Não só a mente - ou só os olhos, ou só a pele - impressionava-se com as palavras. Apesar de escritas, silenciosas, sussurradas, elas sabiam o caminho. O caminho já as conhecia. Mesmo semo calor da voz para guiá-las. Como se estivessem presentes em mim há anos. E outra caneta - ou lápis, ou teclado - as tivesse encontrado. Duas mentes em uma idéia. Sim, eu as conhecia.

E fluíam. Desprendiam-se em ondas dos parágrafos imóveis. Diálogo das almas em um mundo sem peso. Penetravam-me os poros. Umedeciam-me os olhos. Vacilavam-se nos lábios, que as sussurravam como que para eternizá-las. E me vi arrepiada, com o coração dançando. E as duas palavras pareciam ecoar. Como se já tivessem sido ditas. A leitura fez-se em mim. Como se transpirassem pela minha pele, ao vento. E ouvia falarem-me em um mundo que só nós conhecemos. Que descobrimos entendendo-nos. Sem a necessidade de nos conhecermos. E dormi com seus ecos nos ouvidos. Como que pelo calor da voz. Como que libertada.

Alessandra Gorayeb Martins