12.27.2005


Acordei com uma paixão nos olhos. Um sorriso raro nas pálpebras. Uma alegria serena, ao compasso do coração, a balançar as cobertas. Aquele sentimento puro. Embalado por palavras. Infelizmente. Podiam ser palavras ditas ao ouvido. Guiadas pelo calor da voz. Mas estavam jogadas na internet. Saíram de uma casa. Pregadas na tela por dedos que gritavam em silêncio. Pediam, sendo independentes. Dedos que esperavam o toque. Mas que tinham até suas palavras, únicas companheiras, roubadas pela tela. Ficavam só. No frio. Sem nem mesmo o calor da voz.

Os suspiros silenciosos tocavam meus olhos. As palavras chegavam pela mesma tela a mim. Eram novas. Talvez eu já as conhecesse. Podia tê-las escrito. Não só a mente - ou só os olhos, ou só a pele - impressionava-se com as palavras. Apesar de escritas, silenciosas, sussurradas, elas sabiam o caminho. O caminho já as conhecia. Mesmo semo calor da voz para guiá-las. Como se estivessem presentes em mim há anos. E outra caneta - ou lápis, ou teclado - as tivesse encontrado. Duas mentes em uma idéia. Sim, eu as conhecia.

E fluíam. Desprendiam-se em ondas dos parágrafos imóveis. Diálogo das almas em um mundo sem peso. Penetravam-me os poros. Umedeciam-me os olhos. Vacilavam-se nos lábios, que as sussurravam como que para eternizá-las. E me vi arrepiada, com o coração dançando. E as duas palavras pareciam ecoar. Como se já tivessem sido ditas. A leitura fez-se em mim. Como se transpirassem pela minha pele, ao vento. E ouvia falarem-me em um mundo que só nós conhecemos. Que descobrimos entendendo-nos. Sem a necessidade de nos conhecermos. E dormi com seus ecos nos ouvidos. Como que pelo calor da voz. Como que libertada.

Alessandra Gorayeb Martins

4 comentários:

Anônimo disse...

Eu nunca encontrei segurança na forma das tuas palavras. É verdade. Nunca encontrei. Mas não precisava das palavras, para perceber isso. A palavra é a forma de entrarmos em contato um com o outro e o corpo é a palavra, é a forma que a alma encontrou para entrar em contato com o mundo, sentindo o que lhe vier, boas ou más sensações. Sempre quando te vejo passar, é tão nítido p'ra mim isso! É como se andasse em vidros. Isso não é defeito, é algo que te faz crescer só tua e por isso mesmo não a confundo com mais ninguém, se só pudesse ver-te os passos. Mas andas em vidros. Assim como no término das aulas, vais para frente ou para o lado uma, duas ou três vezes, antes de eu te dar a confirmação com o olhar que podes vir, apesar dos meus olhos vermelhos, eles não vão te machucar como em outras épocas fiz machucar os teus, porque eles já são outros e absorvem muito mais a luz que lhes é dada do que antes. Agora, no meio deste sussuro ao pé do teu ouvido, pergunto-me se é insegurança a pessoa fazer algo quando só quer um pouco de segurança. Tu não és insegura. Tu só queres uma pequena margem de segurança, para descer o penhasco, se jogar com toda tua força, largar os braços. Isso não é insegurança, é conhecimento, experiência, sapiência. Infelizmente, nem todo o conhecimento que a gente adquire é um bom conhecimento e tu devias pular muitas vezes sem olhar p'ra trás, mas nós somos humanos, temos medo até de ter medo, eu mesmo não pulo mais. Cansei de esperar e se espero alguém é porque já cai muitas vezes nesta mesma espera e me resta um pouco, apenas um pouco de forças. Minha querida amiga e companheira Alessandra Gorayeb, presta atenção no que lhe falarei: nós nunca deixamos de ser namorados, nunca deixamos de desejar o bem do outro, apesar de tu, com a mágoa que muitas vezes te dei, teres te esforçado para pensar o contrário. nunca deixamos de ser namorados, nunca. mas infelizmente ou felizmente, não é que somos opostos que não se encaixam, como já disseste uma vez em carta. felizmente ou infelizmente, nossa forma de contato não é esse mundo, não é o corpo, não é nada mais além do que nos é estranho, é a palavra.


continuará assim, minha amiga, ao fim dos dias. em silêncio.

Anônimo disse...

o meu grande remorço, que não deveria ser remorço, é ser responsável em grande parte por essa tua espera por uma margem de segurança.

Pedro disse...

Palavras que preenchem o peito. Palavras que, por serem palavras, explicam o que gostaríamos que não fosse explicado. Palavras, algo que surgiu da necessidade de exprimir, de explodir, de explicar, algo que surgiu para sermos.Palavras que doem. Palavras que curam. Palavras.

Muito me doem estas tais palavras por ti escritas, porque, apesar de preencherem o peito e de serem belas, elas ainda não completam...
Pois meu mundo sem peso acabou sendo massacrado por esse denso mundo. Não deixe que isso te aconteça. Minha vida hoje é assim, vazia. Culpa minha que afoguei meu doce mundo amargo na dureza desta fantasia inútil-medíocre-hipócrita a qual vivemos.

abraços e mais vida nos dias que seguem.

Anônimo disse...

Antes de começar aviso que nao estou na minha melhor forma. Com minha terrivel nota na redação fiquei um tanto intimidado.
Depois dos fogos (ou durante) fiquei raciocinando um pouco sobre o que falamos hoje... Sobre o meu motivo de ter demorado tanto pra comentar. Eu entendi porque eu acho. Aquelas desculpas que te dei foram mal elaboradas, notei que tu nao engoliu (com razao) pela tua expressão.
Eu fiquei tão (nao-sei-qual-palavra, mas é alguma cheia de sentimentos indescritiveis) que não tive coragem de responder. Verdade seja dita, acovardei-me pelo fato do estranho sentimento crescente, gritante, que só eu não percebia. Logo depois que nos falamos eu fui dar uma volta pela casa, fui lá pra sala onde tenho um janelão onde vi a queima dos fogos e tal. Meu pai me olhou e disse: "Tu tá apaixonado pela tal Gorayeb?"
Sim, ele me denunciara, com incrivel inocência. Minha expressão era evidente, todo meu corpo gritava silencioso um amor impossivel. Gritava com raiva da situação. Da impossibilidade, da inexorabilidade do fato geográfico.
Lembra das tais promessas de vestibular? Numa noite lá no cursinho, eu falei de brincadeira: "Se eu passar, vou tomar o maior porre no ano novo"
Bem, o porre eu tomei, mas não foi pra comerar a vitoria, ou o ano que chegava. Foi pra esquecer a realidade cruel. Sei que odeia isso, sei que detestou o ultimo periodo, mas sou obrigado a confessar, negar seria um crime ao atestado de confiança que dividimos.
E sabe o pior de tudo? É que tive que escrever. Não pude dizer no teu ouvido. São palavras silenciadas pela frieza do mundo sem peso. São 'dedos que gritam'. E tremem.
Te devo muita coisa, mas a principal era uma resposta, ou ao menos uma satisfação, talvez um pedido de desculpas. Mas tenha fé, por que eu também tenho.

Pedro