7.29.2006

Em belém, depois de uma meia "manhã" de viagem, me deparei, novamente com a tal da internet. E, sem perceber, me vi perdida nos seus mares. Eu que jurava que já havia me libertado dessa maneira sutil de manter pessoas ancoradas às cadeiras. Agora, fora de casa, encontro-me com meu diário. Acredito que vou adotar essa idéia de verdade. Não há nada melhor do que descarregar tudo que senti durante o dia em qualquer tempo livre que eu possa encontrar. E, na volta de carro resolvi acrescentar no início dos escritos a bela letra de Legião Urbana. Agora é como um mantra para mim.
Estou no aeroporto. A família está unida à espera da minha avó que retorna de mais uma das suas viagens, muito embora essa não tenha sido das exóticas que costumava fazer. Uma simples, aos seus olhos, apenas para relaxar, mudar a rotina e voltar a dar valor a atos que se torrnaram automáticos pela repetição.
Na mesa ao lado da minha, no café do aeroporto, acaba de se sentar uma figura nada comum aos dias atribulados. E acaba por ser por sua causa que começo a escrever. Um senhor de terno preto e calça social um tanto folgada, verde clara, puxando um pouco para lima. Por baixo do terno, uma blusa, também preta, que não pude distinguir com certeza absoluta se era de algodão (dos que pinicam) ou de lã fina. Perto da gola, fechada por botões pretos envoltos em fios dourados.
Tem uma mania do coçar o topo da cabeça para o lado esquerdo com a mão direito. Mas isso pode ser uma mania, de fato, ou simplesmente porque leva um livro com capa laranja com a outra mão. Prefiro acreditar ser mania. Cai bem com seus olhos pequenos e curiosos que olham com uma profundidade disfarçada por ar superficial. Também pode ser que os olhos nem sejam tão pequenos, por culpa de uma possível hipermetropia ou presbiopia (soa mais romântico) emoldurada por aros dourados de óculos finos e redondos.
Abaixo do olhar, um nariz protuberante acentua a silhueta e completa o semblante ao combinar com a fenda de onde seria a boca. Há alguns minutos, ele ia a um caixa eletrônico, e passou um bom tempo lá. Depois se desloca a um outro, com a coçadinha no topo esquerdo da cabeça novamente. O que me fez escrever foi seu ar de escritor. Será que é algum anônimo que escreve aquelas coisas que todos gostariam de ter escrito mais não souberam como? Ou será que escreve tecnicamente como um psicólogo ou sociólogo sobre as pessoas poro causa das suas observações? E todos esses pensamentos vieram por causa da moldura do rosto curioso: um cabelo até metade do pescoço grosso e curtinho. Branco pintalgado de preto. Aberto, desarranjado. Passando descuidadamente por sobre uma vaga calvíce e uma testa estupenda.
Agora levando os olhos para o novo caixa eletrônico e não tenho mais vestígios do senhor. E não posso mais descrever quem não vejo. O som apita anunciando um novo embarque. O avião da minha avó já está no chão.
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Foto: Parece do Centur, tirada há alguns anos.

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