Existe um tempo que insiste em derreter. Escoar. Retornar. Que dá voltas ao meu redor.
Que se nega a cair pelo ralo. O tempo se pendura por sobre os ombros e pesa. Pesa
Pedindo e forçando o pescoço. E me faz olhar através de si. Faz-me lembrar
Que eu parti. Um espelho que se tornou mil. Um coração que se tornou
Dois. Um caminho que se bifurcou. E parti. Com passos ante os
Passos.E passeios com a cabeça erguida. Com os olhos
Adiante. Fingindo não querer te ver. Fingindo te
Esquecer. Firme. E filmes teus me passam
Pela mente. Mentes. Minto. Não quero
Dizer saudar-te. Não quero dizer.
Não abro a boca. Sufoco.
No meu silêncio,
Grito.
Suspiro.
E choro com
Olhos fechados. Não
Sufoco.Desespero. Troco
De mundo.Inverto-me. Junto os
Cacos. Meu rosto disforme te vê refletido.
Vê-te como a um tempo, sem maquiagem. Como
Havíamos combinado. Lembro de ti. E confesso para mim.
Olho para trás. Por cima do ombro. Encarando o tempo escorrido.
Fantasio. Ouço-me falar o que queria. E ouço-te me responder. Brinco
De ser criança. Imersa no mar de nuvens que semeamos. Olho o relógio na
Parede girar ao contrário. Às vezes fico sem respirar, afogada nas tuas lembranças.
Se hoje, talvez fosse diferente. Talvez. Mas deixa-me chamá-los de pensamentos, apenas.
E deixa-me confundir-me. Não sei mais de nada. Por mais contraditório que pareça. Vivo
No meu espelho. No meu escuro. No meu silêncio.
Deixa-me te esquecer. E respirar.
Alessandra Gorayeb Martins
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Post: na realidade, não é inspirado por The DaVinci Code.
Imagem: improvisada.
Era para ser uma ampulheta. Pela simetria, mais lembrou o cálice e a lança.
Sem me opor à ordem das palavras, que, por sinal, nunca são inocentes, resolvi deixar minha idéia original de tempo cíclico [que inclusive se encontra no texto anterior] de lado. Aceitei o espelhamento. Aceitei o encaixe. O toque puro de duas almas que se encontraram/ão. Talvez fosse isso que eu quisesse dizer.
Do outro lado do espelho, eu vejo você.