5.24.2006

P.S.:

Dois textos seqüenciais. Dois textos complementares. Ou duas fotos de ângulos diferentes. Teriam mais. Foi um surto. Foi um escape. Extravasou... Um momento de fraqueza. Ou de forças reunidas de um berro do coração. Textos póstumos. Fora do tempo. Textos perdidos no peito. Lutando há meses para sair. Suprimidos. Sufocados. Invertidos, qual negativos, por tanto tempo. Até que eu enfim aceitasse. Quisera eu ter a força de encarar tuas palavras. Mas elas podem ferir. Quisera eu ver novamente os reflexos da tua alma. Quisera eu ver o sonho se materializar. Eu bem que poderia dormir novamente. Fechar os olhos. Continuar a sonhar de onde parei. Sempre é difícil fechar os olhos depois de um dia atribulado. Por isso vêm os posts. Escritos póstumos. Post Scriptums.

Forma-se a tríade. O três. Mais uma vez.

5.22.2006

Clepsidra.

Existe um tempo que insiste em derreter. Escoar. Retornar. Que dá voltas ao meu redor.
Que se nega a cair pelo ralo. O tempo se pendura por sobre os ombros e pesa. Pesa
Pedindo e forçando o pescoço. E me faz olhar através de si. Faz-me lembrar
Que eu parti. Um espelho que se tornou mil. Um coração que se tornou
Dois. Um caminho que se bifurcou. E parti. Com passos ante os
Passos.E passeios com a cabeça erguida. Com os olhos
Adiante. Fingindo não querer te ver. Fingindo te
Esquecer. Firme. E filmes teus me passam
Pela mente. Mentes. Minto. Não quero
Dizer saudar-te. Não quero dizer.
Não abro a boca. Sufoco.
No meu silêncio,
Grito.

Suspiro.
E choro com
Olhos fechados. Não
Sufoco.Desespero. Troco
De mundo.Inverto-me. Junto os
Cacos. Meu rosto disforme te vê refletido.
Vê-te como a um tempo, sem maquiagem. Como
Havíamos combinado. Lembro de ti. E confesso para mim.
Olho para trás. Por cima do ombro. Encarando o tempo escorrido.
Fantasio. Ouço-me falar o que queria. E ouço-te me responder. Brinco
De ser criança. Imersa no mar de nuvens que semeamos. Olho o relógio na
Parede girar ao contrário. Às vezes fico sem respirar, afogada nas tuas lembranças.
Se hoje, talvez fosse diferente. Talvez. Mas deixa-me chamá-los de pensamentos, apenas.
E deixa-me confundir-me. Não sei mais de nada. Por mais contraditório que pareça. Vivo
No meu espelho. No meu escuro. No meu silêncio.
Deixa-me te esquecer. E respirar.




Alessandra Gorayeb Martins
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Post: na realidade, não é inspirado por The DaVinci Code.
Imagem: improvisada.
Era para ser uma ampulheta. Pela simetria, mais lembrou o cálice e a lança.
Sem me opor à ordem das palavras, que, por sinal, nunca são inocentes, resolvi deixar minha idéia original de tempo cíclico [que inclusive se encontra no texto anterior] de lado. Aceitei o espelhamento. Aceitei o encaixe. O toque puro de duas almas que se encontraram/ão. Talvez fosse isso que eu quisesse dizer.
Do outro lado do espelho, eu vejo você.

Fantasia.

Voltei a ficar afogada em pensamentos. São muitos que terminam por, às vezes, não me deixar respirar. Debaixo desse mar, vejo tuas imagens passarem. Me sinto sufocar. Facilmente, eu poderia confundi-los com saudades... mas, por pensar, e me prender a isso, acabo por temer qualquer classificação. Deixa-me chamá-los de pensamentos, apenas. Permita-me deixar de lembrar de ti. Deixa-me pensar que te esqueci. Deixa-me só, se estás feliz. E se fui eu que apareci, perdão. Não foi só tu que amaste. Nem só tu que não esqueceste. Me confundes. Ou só eu me confundo. Me prendes. Por mais contraditório que sejas para mim. Por mais bonzinho que eu te ache. Por mais irritada que tenha ficado, ou que às vezes fique. Mesmo que não imponhas tua vontade, ou que fales demais, ou que demores a aceitar o fim das discussões. Talvez, se fosse hoje, tudo fosse diferente. Talvez eu pudesse manter-me imersa naquele mar de nuvens que semeamos. E meu corpo não clamaria no meu silêncio infantil. No meu medo imaturo. Mas o hoje continua berrando que já passou. E o tempo continua se dissolvendo ao meu redor. Abro minha gaveta e te vejo ao meu lado. Olho meu relógio girar ao contrário. Saio e te vejo nas esquinas. Fecho meus olhos e brinco de fantasiar. Brinco de dialogar, no meu escuro, no meu suspiro. E brinco de ouvir de ti o que queria ouvir. É hoje. E te amei. E uso o verbo no passado. Me confundes. Não sei mais de nada. Deixa-me chamá-los de pensamentos, apenas.
Não imaginas o quanto tenho pensado e evitado pensar nesses dias. Acordaste, novamente, em mim.
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Imagem: Esboço feito com olhos entreabertos.
Releitura em uma madrugada.
Inspiração: Salvador Dalí