3.29.2007

Maquiagem



Ela continua encarando. Como nos outros dias, deixa de lado possíveis todas as possíveis distrações e se concentra. Mira o olhar na pupila. Observa as nuances dos movimentos, das tonalidades. Se aproxima e, sem quebrar o ritual, pega o estojinho de maquiagem, mas ainda não o usa. Parece que a qualquer momento poderá ver a alma acenando lá de dentro, se não fosse tão escura a fenda no centro da íris...

Vai alterando a tonalidade das pálpebras e o pensamento agora não mais se concentra nas imagens refletidas. Esta parte é mais automática, mais subjetiva. E pensa em quê pensará ele quando a olhar. Porque sabe que não precisa ser dito nada, e sabe que sempre que desejar o encantará. E que saberá disso, mesmo no silêncio.

Ela sorri. Olha-se, pensa, e sorri. Antes sempre que pensava em felicidade, mil questões existenciais lhe surgiam. E sempre receava não estar vivendo da maneira que lhe levaria à felicidade. Agora - quando menos tem tempo livre, quando se divide entre faculdade, família, estudo, cuidados pessoais (femininos), faculdade (outra), namorado, amigos e descanso (a menor parcela) - parece que o tempo se lhe multiplicou para sorrir.

Ela pensa sobre o que pode estar faltando - por sinal, uma pergunta que ela jamais faria há algum tempo, talvez por medo de achar faltarem coisas demais. E pensa, e pensa. E, por fim, sente-se completa. Não completa absolutamente, mas se completando a cada dia, a cada minuto, como se cada passo fosse uma conquista em si, não um meio para alcançar algo. Sorrisos não lhe faltam, afinal. E que estranho é sentir-se repleta de alegria e de otimismo que há muito não sentia, ou que sempre sonhara, ou que nunca se permitia.

Ela torna a olhar para as pupilas. E para as maçãs e para os lábios. Será que todos perceberão que de uns tempos para cá algo mudou na sua vida? Não sabe o que deve ser, mas desconfia que é acreditar em si, e fundir diversas vidas em uma. Provar aos que duvidam da sua capacidade que tudo o que faz, além de possível, é gratificante.

Ela olha, agora, através do espelho, para a folha de papel que, há algumas semanas, deixara pousada sobre a bancada com a lapiseira enviesada, deitada, em posição de poema. Sabe que deve escrever. Sabe que um dom não se desperdiça, mas não sabe se é dom, de qualquer forma, seria melhor não arriscar. Mas nunca chega a poesia. O máximo que o grafite faz é um pontinho no papel. Cadê estímulo, cadê inspiração, cadê palavras, que já foram tão abundantes?!

Então a poesia sobre a mesa parece lhe segredar algo. Ela já entendia, já sabia, mas era necessário que houvesse um sinal. A verdade - tornava a olhar para a íris - era que a poesia agora era sua própria vida. Arrancá-la para um pedacinho de papel seria tão impossível, e tão intensa vinha sendo ela nos seus dias... Mas ela sorri novamente, enfim, pode afirmar com toda a certeza que é feliz. E pega o rímel para finalizar o ritual. Toca o despertador. Acabou o tempo dos cuidados pessoais... Esta noite ainda reserva faculdade, namoro, família, descanso...

3 comentários:

raukai disse...

um texto bem bacana sobre a felicidade, afinal pegou um mote bem original, o da maquiagem. o ato e pintar o rosto é com certeza um ato de projeção da imagem de si, o que simboliza bem o estado de alegria da personagem, que tem um encontro narcisístico não só com sua imagem no espelho, mas com toda a sua vida. bacana :)

ah, e obrigado pela visita! mas só uma curiosidade: como cê me achaste? heheh

Yúdice Randol disse...

Que texto maravilhoso, Alessandra!
Costumo dizer que o que mais me encanta num texto bem escrito é o uso de palavras cotidianas dispostas numa frase mágica. Quando me deparo com algo assim, experimento uma situação espiritual de alegria e eis que, no teu, encontro isto: "deixara pousada sobre a bancada com a lapiseira enviesada, deitada, em posição de poema".
Teu talento me comove. E fico intrigado ante o fato de uma pessoa com tanto a dizer ficar sempre tão caladinha no fundo da sala...

Navi Leinad disse...

Nossa! Quanta beleza em teus textos! Beleza poética, beleza na linguagem, beleza na descrição dos detalhes... Parabéns!
Cheguei aqui através do blog do Yúdice e não me arrependi.
Voltarei mais vezes.
Abraço,
Ivan.