6.17.2013

Em partes, em imagens, em emoções. Manifesto Belém



Parte I - Primeiro veio a revolta e indignação. Todos os vídeos compartilhados dos absurdos covardes e nojentos daqueles que não consegue pensar por conta própria. De quem se cega por mandos e desmandos, e esquece da sua origem. A cegueira atiçou a chama que tem dentro de nós. Eu, que nunca me imaginei saindo às ruas, fui encantada com a onda de bom senso que resolveu recair sobre os brasileiros.
Os olhos, enfim, não mais fingiram estar fechados. As bocas pegaram seus trombones e espalharam ao mundo a revolta, a palhaçada. Foram sopros sobre a brasa que já começara a arder. Cada nova covardia, cada nova máscara caída, trazia um pedaço do desejo de sair e contribuir para mudar o país, um desejo de ser vista e ouvida. A nossa vez chegou, enfim! Isso é a história viva, pulsando. Uma história na qual estamos mergulhados, uma história que estamos escrevendo com as nossas palavras, com o nosso coração.


Parte II - Depois de tanta revolta, veio a vontade de mostrar toda essa indignação que já existe engatada nas gargantas desde que podemos nos lembrar. O tempo de sentar no sofá e reclamar do Brasil para os familiares durante o almoço e jantar passou. Agora, é muito mais do que isso. Finalmente. As postagens, que antes eram mostrando absurdas atrocidades cometidas pelos que mais temem o que está acontecendo, passaram então a ser de instigação, de incentivo e força. Passaram a ser postagens de idéias e coragem para quem quer que se dispusesse a pisar fora de casa para se unir a todo o povo brasileiro. Postagens que mostram que o "jeitinho brasileiro", agora, é esse.
Não resisti, e a vontade de sair passou a ser uma necessidade. Não dá pra estudar, ou assistir um filme e fingir que não se está ouvindo o Brasil gritar um belo e sonoro "NÃO". Não dá pra optar por fechar os ouvidos, os olhos e a boca depois de tudo que já ouvimos, e vimos, calados. Reclamar de tudo, dentro de casa, não leva a nada. Nós somos o Brasil do amanhã, e que orgulho de fazer parte disso!


Parte III - O primeiro passo, então, é mostrar que exigimos que nos seja garantido o direito constitucional de nos manifestarmos, expressarmos nossa opinião, nosso descontentamento, nossa angústia que por tantos anos berrou muda dentro dos nossos peitos. Queremos o direito de poder gritar em coro sem sermos atacados como terroristas, o que tantos vídeos mostram nesses últimos dias. O ritual começa, ansiosamente. Separa-se o casaco impermeável, uma água, documentos, um trocado, celular. Coloca-se uma blusa branca pela paz. Não há vinagre, mas há a fé de que não viria a ser necessário. Então, vem o medo, o nervosismo de que, sendo retardatários, sofreríamos da covardia que tem sido um retrato da polícia nas maiores manifestações do país.


Parte IV - O coração acelera até quase fazer as pernas tremerem, enquanto os passos apertam e nos esprememos entre os policiais da ROTAM. Cacetetes, capacetes e coletes. O caminhar deles era ameaçador de tão tranquilo. Depois de cerca de três desses encontros, e esquivas, chegamos ao movimento. Tudo muda. A vontade é a mesma. Os corações já esqueceram do medo, transbordando de emoção. Vibrando a cada coro, a cada palma, a cada bandeira brandida com paixão. O orgulho infla o peito. A voz e as palmas se unem ao coro. Estamos todos juntos, sem violência, "caminhando e cantando e seguindo a canção".
Ao olhar para o lado, podíamos perceber a polícia acompanhando o manifesto, observando, sem nenhum ar de querer intervir. Depois de quilômetros com essa atitude, passaram a ser motivo de aplausos em agradecimento, por nos reconhecer como seus, por nos dar passagem e segurança, por nos deixar falar.


Nos prédios, pessoas aplaudiam, balançavam bandeiras, e nós respondíamos os chamando para nos acompanhar "Vem pra rua!" e "Desce daí, a Luta é aqui!". E aquela senhora sorridente, em uma das varandas, balançando o lenço branco me emocionou mais do que deveria.


Parte V - A sensação de felicidade e orgulho decorrente daquela paz, daquele desabafo, nos uniu no coro de "Eu sou paraense, com muito orgulho, com muito amor!", com a certeza, novamente, de que Belém agiu lindamente, sendo mais uma vez, um exemplo para o Brasil! Que orgulho de fazer parte disso, de mostrar que o direito de nos manifestarmos ainda é nosso, e vai continuar sendo nosso, e de que o mundo inteiro está nos vendo!




Ao final do trajeto, foi pedido que nos sentássemos na BR. Em meio aos coros, um líder insurgente tomou a palavra. Na ausência de megafone, fomos o próprio eco. Ele falava frases curtas, quem escutava, repetia com a força de um coro. E todos entenderam que somos motivo de orgulho, que somos expressivos, que conseguimos nossa primeira meta, todos nós, com os punhos fechados, levantados, repetindo as palavras embebidas no desejo de mudança que todos temos, repetindo o agradecimento e reconhecimento do trabalho bem feito do policiamento, que esteve ao nosso lado, e não contra nós, como sempre e em todos os lugares deve ser. A polícia, novamente, recebeu palmas. Ficamos com a promessa do reencontro ainda nessa semana. Começamos a fazer o trajeto de volta, com a sensação de meta cumprida, de alívio, de alegria, de orgulho. 


Parte VI - Durante este trajeto, o policiamento ainda estava presente. Auxiliava no retorno do trânsito ao normal. Todos caminhando lado a lado aos cacetetes, agora sem medo algum. Viaturas que passavam, lotadas de policiais, e grupos de policiais que ainda observavam, foram alvo de enxurradas de aplausos, e sorrisos, e gritos de exaltação em reconhecimento e gratidão. Aplausos e sorrisos aos quais eles todos, sem exceção, retribuíram. A noite ficou ainda mais linda.

A gratidão é uma das maiores virtudes que o homem pode ter,
e hoje, Belém mostrou que, apesar da revolta,
é bem possível ter respeito e gratidão
por todos os nossos iguais.

Este dia ficou pra história. A palavra da noite é Orgulho. E fica a certeza de que, depois deste primeiro passo bem dado, nós dormiremos muito bem (ao menos) nesta noite.


"Brasil, vamo acordar! O professor vale mais que o Neymar!"
"Eu sou paraense com muito orgulho, com muito amor!"
"Desce daí! A luta é aqui!"
"Vem pra rua!"
"O povo unido jamais será vencido!"
"Jatene, cadê você? Vem aqui que eu quero ver!" - ao passarmos pela frente do circo Curro Velho
"O povo acordou, o povo decidiu! Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil!"
"Tira os baderneiros!" - em uma das poucas situações pontuais onde pessoas de fora da manifestação iniciaram uma baderna que foi contida em poucos segundos.

Um comentário:

Vieira disse...

Um ato bonito e documentado com belas descrições.